MARCELO SUPPA MEIRA


09/09/2008


O fantasma da Redação (parte 1/3)

     Quando cheguei ao trabalho naquela manhã de terça-feira, a Redação estava vazia, lindo contraste com a panela ao mesmo tempo ebulitiva e efervescente em que aquele mesmo ambiente se transformava a partir das seis da tarde com a anárquica multidão de repórteres e editores compelidos a mais uma vez — tal e qual ontem, tal e qual amanhã — cumprir o que é a própria definição do que seja fazer um jornal, “o milagre diário” de na manhã seguinte estar à disposição do leitor na banca da esquina ou sobre o capacho da porta de sua casa.

     Resolvi aproveitar a rara calmaria e atualizar pendências gritantes a partir da minha consciência de dever profissional. Enquanto empilhava despachos administrativos com a típica pressa de quem sabe que a qualquer momento chegarão novas demandas, eu, em minha “sala” — na verdade uma baia em frente à larga porta da Redação —, eu ia aos poucos me conscientizando de um assovio que já estava no ar há longo tempo. Sim, havia na Redação alguém bem relaxado que na última meia hora assoviava compulsivamente “Hey Jude”, dos Beatles.

     Lá por volta das onze e meia, comemorei ter dado conta de todas as tarefas que me havia imposto, e, fato tão raro, um milagre!, ninguém me interrompera! E nessa muda comemoração, voltei a ter ouvidos para o assovio. Já livre das preocupações mais imediatas, resolvi entrar na Redação — campo minado mas, para mim, reduto de tão boas energias! —, tirar a limpo a procedência do assovio tão insistente, inspirado e inspirador.

     Por incrível que pareça, na inteira redação havia àquela hora um único jornalista, um jovem estagiário de Esportes, Eduardo Novellino, com quem eu me dava muito bem. Aproximei-me e nem dei bom dia. “Novellino”, dei início à provocação, “alguém passou a manhã inteirinha assoviando “Hey Jude” nesta porra desta Redação! Você por acaso sabe quem foi esse viado?”. Novellino escancarou um sorriso, que evoluiu para uma gargalhada, e me disse “Ô, Maradona, você é uma figura, sabia? Não gosta de “Hey Jude”? Garanto que gosta, garanto que assoviei bem pra c*r*lh*, aposto que curtiu”.

     Entrei de novo na Redação uma hora depois, agora para conseguir companhia para o almoço. Minha primeira abordagem recaiu sobre Patrícia Raposo, loura de cabelos encaracolados e piscinais olhos azuis, a mais gostosa e cobiçada jornalista da casa. Ela teve uma reação estranha, como se meu convite escondesse no subsolo uma velada investida, e então negou o convite sacando como desculpa algo relacionado a seu filhinho, Yan. Para demover Patrícia da idéia de que meu convite envolvesse segundas intenções, meu reflexo nessa hora foi estendê-lo a outras pessoas, homens inclusive — tudo que eu não queria ali é que Patrícia soubesse que eu, de fato, como qualquer homem normal, sentia por ela..., por assim dizer..., bem..., o fato é que não tenho sangue de barata...

     Perdi para esse almoço a companhia de Patrícia Raposo, mas ganhei a dos outros dois jornalistas convidados: o também muito jovem Fábio, de Economia (Fábio Melo, salvo engano meu), e Eduardo Novellino, o assoviador oficial de “Hey Jude”.

     Dali a alguns minutos, na ponte que separa a Rua do Imperador, onde fica o jornal, e o bairro do Recife Velho, onde ficava o restaurante Marco Zero, caminhávamos os três, eu no meio e um jovem de cada lado. Enquanto à minha esquerda Fábio falava pelos cotovelos sobre seu projeto de ir morar em São Paulo, notei que o cadarço do tênis de Eduardo estava desamarrado, e fui nessa hora iluminado por este pensamento: “A esquina que fica no fim desta ponte é perigosíssima, vem carro de três lados, a travessia sempre obriga o pedestre a correr, e se Eduardo estiver nessa condição vai se arriscar muito, poderá tropeçar no cadarço e cair no meio da rua, ser atropelado e até morrer e eu serei o culpado”. Assustado com esta imaginação tão medonha, interrompi Fábio, avisei a Eduardo sobre o cadarço. Ele se abaixou para amarrá-lo, e enquanto fazia isso disse “Pô, Maradona, você agora foi demais, se eu atravesso ali na frente desse jeito, eu podia me foder, até morrer de graça, Maradona, pode ser que você agora tenha salvado a minha vida”.

     Tivemos, sim, que correr ao atravessar o tão perigoso cruzamento na cabeceira da ponte, o mesmo acontecendo na volta do restaurante, e ao fim desses dois piques eu me senti muito bem por Eduardo estar comigo e com Fábio, são e salvo, mas ao mesmo tempo me senti muito mal por aquele pensamento mórbido saído sei lá de onde. Durante o expediente da tarde, entrei várias vezes na Redação e em todas elas minha vista procurou Eduardo Novellino, ele ali sentado diante do computador, trabalhando, ótima cena a me trazer conforto.

     Na manhã seguinte, quando chego para trabalhar, só quem estava na Redação era o pauteiro Édson Rubi, recuperando as notícias da noite para servi-las aos jornalistas de Cidade à medida que fossem chegando. Ele estava sentado bem junto à porta da Redação, datilografando suas pautas, quando lhe dei bom dia. “Maradona”, disse ele, “você já está sabendo o que aconteceu esta noite?”. Tive vontade de brincar dizendo que o pauteiro era ele, não eu. “Não, Rubi, o que houve?”. E ele: “O Eduardo Novellino morreu”.

     Minha vista turvou. Faltou-me chão sob os pés. Achei que o pensamento mórbido do dia anterior voltava agora mas pela boca de Édson Rubi. Aquilo não estava acontecendo, não era possível! “Rubi, você está brincando? Eu almocei com o Novellino ONTEM!”. “Eu sei”, disse ele, “mas à noite, ao sair do jornal, ele foi cobrir um jogo de basquete na AABB, e quando voltava para casa bateu violentamente com o carro em dois trilhos de aço que ficam logo depois da descida da Ponte do Pina, naquela esquina do posto Itamaracá Auto Shopping. Morreu na hora”.

     Sentei... Rubi não iria brincar com algo tão sério. Pus o rosto entre as mãos. Sofri com a reprise da cena da tarde anterior, Novellino se agachando na ponte para amarrar o cadarço do tênis e dizendo que eu tinha salvado sua vida. E agora, 20 horas depois, ele estava morto. Aquele tinha sido o último almoço de sua vida. Opressivo pensar nisso, pois eu tinha tido a visão da morte de Eduardo, e, segundo ele próprio, conseguido revertê-la..., mas agora ela estava consumada. Fui invadido por um apavorante sentimento de culpa.

     Passei o dia inteiro fazendo até muito mais do que exigia minha função de Administrador da Redação, empenhei-me ao máximo quanto ao velório e enterro de Novellino, aquilo tinha se tornado, para mim, uma causa pessoal.  No fim da tarde, fui levando a coroa de flores comprada em nome do jornal e dos colegas da Redação, coloquei-a junto ao caixão, no Cemitério Parque das Flores. Bem à minha frente estava, agora inerte, aquele menino tão alegre que na véspera tinha espalhado alegria assoviando “Hey Jude”.

     Eduardo Novellino tinha créditos a receber do jornal. Fui pessoalmente levar o dinheiro a seus pais, no Setúbal, mas eles não queriam nem ouvir falar nesse saldo de salário, estavam inconsoláveis, disseram-me que o entregasse à empregada deles, que tinha sido babá de Eduardo desde bebê.

     Num dos dias seguintes, apresentei à direção do jornal a sugestão de batizar a Redação com o nome de Eduardo Novellino. Minha idéia não foi aceita, disseram que eu só estava sugerindo isso por estar possuído por forte emoção, “no calor do momento”.

     É, só que isso já faz 17 anos e o “calor do momento” ainda não passou.

     Nestes anos todos, não há uma única vez em que eu ouça “Hey Jude” e não me lembre de Eduardo Novellino. E nessas horas ele sempre aparece assoviando essa música, escancarando-me um sorriso e dizendo em seguida “Maradona, você salvou minha vida, eu ia morrendo de graça...”.

 

 

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 16h20
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

O fantasma da Redação

     Os três episódios sinistros, dignos de Edgar Allan Poe, que serão aqui narrados — a partir de hoje e em três partes — são absolutamente reais e aconteceram num curto espaço de poucos dias, em 1991, quando eu trabalhava como Administrador de Redação no Jornal do Commercio, de Recife, Pernambuco.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 16h05
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

     Sobre Jesus Cristo:

 

     “Observai como o Salvador executou dignamente o seu projeto. Tendo estabelecido, em seus decretos, que salvaria os homens com a loucura da cruz, utilizou nessa tarefa apóstolos grosseiros e idiotas, recomendando-lhes calorosamente que evitassem a sabedoria e seguissem a loucura, e indicando-lhes o exemplo dos meninos, das gralhas e dos pássaros, seres sem nenhum artifício e sem inquietações, que só se orientam pelas leis da natureza e pelo mecanismo do instinto”.

 

[ Erasmo de Rotterdam (1466-1536), em “Elogio da loucura”, Editora Martin Claret, pág. 109/110. ]

 

Erasmo de Rotterdam visto por Hans Holbein o Novo (Museu do Louvre)

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 11h37
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

08/09/2008


Amargas lembranças de doces tempos

     No lado de cá da rua, uma pensão para homens, e no lado de lá, um pensionato para moças.

     Um poeta nordestino ainda não estava refeito da repentina rejeição da linda moça da pensão em frente, que de repente, sem quê nem porquê, pôs fim ao tórrido caso de amor havido entre eles.

     O inconformado ainda estava a remoer as dores do rompimento e se deprimia ao olhar de sua janela e ver sua ex-amante na janela defronte, tão perto e ao mesmo tempo tão longe.

     Um dia, não pôde mais resistir à recorrência das lembranças, enviou-lhe um bilhete que dizia:

 

     “Davanira

     Pare de estender sua roupa na janela

     Toda vez que eu vejo ela sem você

     Só me ’ alembro’ de você sem ela”

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h41
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

“A força germinativa do amor”

     Acabo de concluir a leitura de “As mulheres de Van Gogh — seus amores e sua loucura”, de Derek Fell.

     É um livro desses bem raros: comovente, edificante, amargurante, capaz de trazer questionamentos que podem mudar a vida de uma pessoa que tenha atenta leitura e, sobretudo, sensibilidade.

     Vou agora mesmo sugerir ao autor, Derek Fell, que escreva um livro intitulado “O homem que matou Van Gogh”, sobre a vida do médico Gachet.

     Bem, isso é mágoa minha, mágoa por sinal bem fundada, mágoa que deveria ser de toda a humanidade.

     Mas, voltando à “força germinativa do amor”, uma das frases preferidas do “louco” Van Gogh, cito aqui uma de suas frases mais perfeitas:

     “A pedra perecerá, a palavra permanecerá”.

     É por isso que escrevo...

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h40
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

“... é assim que as coisas quase sempre acontecem na vida de um pintor; o sucesso é talvez a pior coisa que pode acontecer”.

 

“A maneira como se interpreta um compositor é uma arte em si”.

 

“Numa cidade grande, a pessoa que está cansada se sente perdida”.

 

[ Vincent Van Gogh (1853-1890), gênio da pintura ]

 

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h39
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Atmosfera embrutecedora

     Pelo menos até quase o fim do século XIX, acreditava-se que o órgão humano que sentia com mais intensidade coisas como angústia e medo era... o estômago.

     O coração foi promovido bem depois disso.

     E passou mais algum tempo até que o coração, como depositário das fortes emoções, fosse suplantado por um outro órgão do corpo humano, o bolso.

     Sinal dos tempos, hoje em dia a realidade é que melancolia e depressão podem ser instantaneamente removidas do espírito humano muito menos por tratamentos psiquiátricos medicamentosos e muito mais por senhas de acesso eletrônico a saques de crédito.

     Mas quem estava certo eram os antigos: para aturar os filisteus, que dão tão absoluta primazia ao ouro sonante, só mesmo tendo muito, muito estômago.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h37
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

“Todos precisamos batalhar durante a vida sem comer a aveia que dão de esmola aos cavalos velhos nas mansões dos poderosos”.

 

[ Theo Van Gogh, irmão e benfeitor de Vincent Van Gogh ]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h36
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

05/09/2008


Sorvete frito

     Já me acostumei com a dificuldade que enfrento toda vez que me perguntam qual considero o melhor filme de Woody Allen. Nesses momentos de embaraço procuro mudar de assunto, mas continuando no assunto Woody Allen, que considero genial.

     Um de seus melhores filmes é dos mais antigos e dos menos badalados, “Um assaltante bem trapalhão” (“Take the money and run “, 1969).

     Conta a história de um, por assim dizer, desprezível mão-leve sem causa, um punguista que quase não consegue fazer vítimas por ser, ele mesmo, vítima do azar. A narrativa tem tom de documentário, como se o ladrãozinho fosse muito importante, algo assim como um famigerado Al Capone. As várias desventuras dele são entremeadas com... só mesmo Woody Allen!... testemunhos de seus pais, que, para livrar a vergonha pública, não mostram a cara, aparecem usando máscaras de... só mesmo Woody Allen!... Groucho Marx!

     Num desses depoimentos, a mãe de repente se emociona, ensaia um choro e diz “Não entendo o que houve, ele sempre foi um bom menino”. O que provoca a indignação do pai, que leva só um segundo para desmenti-la: “Ah, não acredito que você tenha o descaramento de defender aquele peste...”.

     O filme tem uma cena impagável. É quando o azarado está no Central Park de Nova York querendo roubar alguém, e vê ao longe uma mulher bem destacada, lendo tranquilamente à sombra de uma árvore. Ele se aproxima sorrateiramente para roubar-lhe a bolsa. Um segundo antes do bote do larápio, a moça se vira, percebe sua presença, abre um sorriso angelical e diz “Ah, que bom que você veio me fazer companhia..., eu estava me sentindo tão sozinha...”. No take seguinte, os dois estão conversando animadamente. E, em off, ele diz: “Foi amor à primeira vista. Quinze minutos depois, eu já pensava em pedi-la em casamento, e, após mais vinte minutos, eu já nem pensava mais em roubar sua bolsa”.

 

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 11h16
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

     “Minha maior ambição é conseguir a incorreção, o desvio, a remodelação, a mudança na realidade; em suma, imagens mentirosas, se quiserem — porém mais verdadeiras que a verdade literal”.

 

[ Vincent Van Gogh (1853-1890), gênio da pintura ]

 

 

 

Os comedores de batata — Van Gogh, 1885

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 11h12
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Esfregando as mãos

     “Nevada Smith” (idem, 1966), filme com o inesquecível Steve McQueen (1930-1980), mostra a certa altura uma colônia penal situada no meio de um inóspito pântano.

     Os infelizes presidiários sofrem o diabo, mas, como ninguém é de ferro, têm direito à melhor das regalias, a visitação de mulheres da região, para encontros íntimos!

     Não me lembro com que periodicidade as moças apareciam — até porque isso não é problema meu —, só me lembro de uma cena em que faltavam poucos minutos para ser autorizada a entrada delas, e um dos detentos, olhando com aflição o ambiente externo por uma fresta do barracão de madeira, de repente se vira para os demais e grita “Lá vêm elas!!!!!!”.

     Poucas vezes na vida eu vi uma pessoa dizer algo com tão incontida alegria.

 

 

 

Steve McQueen em “Nevada Smith” — até a cadeia tem um lado positivo

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 11h09
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

04/09/2008


Notícia boa faz bem ao coração

     Aviso aos torcedores do Fluminense:

     O avicultor Fernando Henrique se machucou no treino de ontem e ficará duas semanas em recuperação.

     Os tricolores poderão aproveitar esse tempo para se recuperarem dos permanentes sustos e desgostos.

     Vou dar duas semanas de folga ao meu cardiologista de plantão.

 

 

O piu-piu está dodói...

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 17h01
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Sabrina diz cada uma... (8)

     Sabrina, 6, liga para dizer que esteve doente.

     “Mas fique tranqüilo, papai”, diz ela, “já estou bem. Tive que tomar injeções. A primeira numa bunda e a segunda na outra bunda”.

     Diante do acesso de riso, ela completa:

     “Mas isso não é para você pôr no seu blog, não, que eu vou ficar morta de vergonha...”.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 14h49
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

What a lady!, what a sunset!

(Pós-escrito sobre a deusa Flávia Tamoyo)

 

     Antes de morrer poderei incluir em minha biografia que assisti a um pôr-do-sol com Flávia Tamoyo (só nós dois). Foi no dia 10 de janeiro deste ano, no Arpoador. Foi indescritivelmente bom, mas teve um efeito colateral devastador: me deu vontade de a partir dali assistir ao pôr-do-sol com Flávia TODOS os dias..., fiquei mal acostumado.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 14h49
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Flávia Tamoyo, um nome mágico

     Nesta minha homenagem à aniversariante, vou evitar rodeios, meandros e preâmbulos, vou direto à parte mais impactante do assunto: SEMPRE AMEI FLÁVIA TAMOYO!

     E que não me venham acusar de exagero, pois, prudentemente, trago aqui a mais confiável das testemunhas, Ricardo Braga Ribeiro Ramos, o Rick, que é meu amigo há 38 anos, meu compadre, meu irmãozinho, além de ser, sem favor algum, o mais nobre ser humano que até hoje tive o privilégio de conhecer.

     (Que o Rick não me falte nesta hora; que o Rick seja rápido como quem furta e invada o espaço de comentários para vir testemunhar que EU SEMPRE AMEI FLÁVIA TAMOYO, sob pena de eu ficar aqui com cara de tacho.)

     Basta o que sinto sinceramente no coração — além, é claro, do indispensável testemunho do Rick — para que eu até com truculência enfrente quem ouse duvidar do MEU ETERNO AMOR POR FLÁVIA TAMOYO.

     Peço mil, aliás, um milhão de desculpas a todas as mulheres da minha vida — as passadas e as futuras —, mas a (minha) grande verdade é que em meu coração NUNCA HOUVE E JAMAIS HAVERÁ UMA MULHER COMO FLÁVIA TAMOYO!

     Conheço Flávia desde nossa infância. Faz, portanto, muito tempo que ela é para mim um paradigma, um modelo, um ideal do que seja a mulher-dos-sonhos.

     Conhecidos os ingredientes — que são universais —, a apresentação do produto final é bem “simples”: beleza, classe, boa educação em dose de primor, charme (ah, e quanto charme!!!), delicadeza, espirituosidade,... e... (requinte que a eleva ao absurdo) quanta, quanta, quanta inteligência!!!

     Ah, esqueci de mencionar a atratividade — não poderia isto faltar numa mulher dessas do tipo “one in a million” que um homem conhece só uma vez na vida ainda que sua vida durasse um milênio.

     No meu caso em relação a Flávia Tamoyo, a coisa é simples de entender, sempre foi assim e sempre será: com quem quer que eu esteja, sempre lamentarei não estar com Flávia Tamoyo; com quem quer que ela esteja, sempre lamentarei ela não estar comigo.

     Por ser leitora deste blog (ou não, querida?!), Flávia Tamoyo sabe que, para mim, a mulher que está no pedestal do Everest é Maitê Proença. Talvez um dia Flávia Tamoyo me faça o embaraço — mulheres adoram isso! — de me pôr contra a parede perguntando-me “Eu ou a Maitê?”. Nesse caso, eu não derraparia na primeira curva da estrada da sagacidade, eu seguraria bem firme o volante do carro das minhas mais sublimes emoções e lhe responderia: “Flávia, querida, a Maitê sempre foi para mim uma espécie de prêmio de consolação com que eu tentava compensar a insuportável frustração por jamais ter quem eu sempre quis ter: VOCÊ!”.

     Hoje é aniversário de Flávia Tamoyo, a quem desde sempre — e para sempre — eu me refiro como MINHA DEUSA.

     Amada deusa Flávia Tamoyo, neste dia do seu aniversário eu, no esforço de homenageá-la, eu posso tudo, tudo menos dizer-lhe o tão convencional TUDO DE BOM! — pois isso você já tem aí em você, body and soul (glued together).

     Amada deusa Flávia Tamoyo, eu queria agora estar aí em Nova York, não pela cidade em si, ela só tem tanta graça por estar... surrounding you.

     Felicidades mil, queridíssima Flávia Tamoyo!

     Sinceramente

     Do seu afetuoso Marcelo

 

P.S.: Eu só não conseguiria ficar eternamente olhando Flávia Tamoyo se sofresse de fotofobia...

 

(Vasculhei a internet inteira em busca de uma foto de Flávia para aqui publicar. Nada tendo encontrado, pensei em aproveitar uma foto que lhe fosse similar, a de sua genérica, Afrodite. Mas desisti, pois a deusa grega da beleza e do amor não lhe é similar coisa nenhuma, nem lhe chega aos pés!)

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 10h28
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

03/09/2008


Hábitos caóticos

     Conversar cutucando o outro.

     Abrir a porta num rompante e batê-la em vez de fechá-la.    

     Lamuriar-se.

     Alterar a voz por excesso de excitação.

     Alterar a voz por excesso de irritação.

     Revirar a garganta em perseguição ao incapturável bichinho do ram-ram.

     Preencher vazios de memória com acessos de tosse.

     Fungar — que vem do latim “fodicare”, ou seja, é flórida...

     Esbarrar nas coisas e nas pessoas.

     Mencionar — e até descrever em detalhes — o mais recente surto de disenteria.

     Assoar o nariz estrepitosamente.

     Abusar dos vícios de linguagem — ao ponto de poderem ser decorados.

     Pensar em voz alta.

     Repetir à larga a gíria do momento.

     Posicionar-se perto demais do outro, roubando-lhe o já escasso ar respirável.

     Inventar todo dia um novo tique, dando a entender que o processo do enlouquecimento alheio é deliberado.

     ...

 

     Cada um desses hábitos ridículos, isoladamente, é capaz de levar à demência até o mais paciente infeliz que esteja por perto.

     Mas, uma vez praticados TODOS eles por uma mesma pessoa, o efeito sobre a humanidade é igual ao de uma hecatombe.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 16h39
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

(Pode-se) Até sonhar de madrugada...

     “Uma mulher não deve vacilar.”

 

(Luiz Melodia em “Juventude transviada”)

 

 

[Vacilar — do latim vacillare; v. int.; oscilar com tendência para cair; não ter firmeza; cambalear; hesitar.]

 

     Vacilar em quê? Vacilar de quê?...

     ... nada disso vem ao caso, pois o verbo é intransitivo (e o ato, imperdoável).

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 16h25
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Alelo 334, a catapulta da traição

     Entreouvido no Bar do Bardo.

 

     Ele: Querida, cientistas suecos acabam de demonstrar que a infidelidade masculina tem uma motivação genética.

     Ela (furiosa): Sim, e daí?

     Ele: Na próxima vez que eu pular a cerca, não me recrimine, vá se entender diretamente com Mendel.

     Ela: O nome do homem que vem dando em cima de mim não é Mendel, não, é Wendell...

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 16h22
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

A valorização do retrospecto

     Não vale a pena possuir uma mulher que não tenha uma história. Qual seria a graça?

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 14h18
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

O homem que matou Mozart

     As únicas pessoas que não têm desejo de dominar as outras são as que detêm sentimento artístico.

     A essa brilhante conclusão, que pertence a Nietzsche, acrescento que as pessoas de espírito artístico são desprovidas também de um outro defeito grave, a inveja.

     Salieri é uma exceção.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 14h17
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Não ao sofrimento vão

     Não suportar a própria chatice é razão bastante para não ter que suportar a dos outros.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 14h16
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

A calçada da fome

     Existe um bar que freqüento e onde descanso de meus pensamentos. Não, não é o Bar do Bardo, este que é fruto da minha imaginação. É um bar real, localizado numa esquina de Copacabana, a uma quadra de uma estação do metrô. Ora, é chover no inundado falar sobre as mulheres bonitas do Rio de Janeiro, e, neste particular, Copacabana só perde para Ipanema, que detém o recorde brasileiro na relação “mulheres bonitas por metro quadrado”. Esse bar, como já disse, fica no trajeto para o metrô, e o rush delas, que coincide com a minha happy-hour, cria uma situação que nem Fellini imaginaria, a impressão, em mim, de que adiante da parede do bar há uma fábrica que produz mulheres lindas, e que entre seis e meia e sete da noite a Expedição trabalhe a plena carga, despachando da linha de montagem a produção do dia inteiro. E essa fábrica, ao que parece, detém certificação ISO-9000, aliás, ISO-14000, pois mulher bonita faz um bem enorme ao meio ambiente.

     A calçada à volta do bar de esquina que freqüento não é uma calçada, é uma autêntica passarela!

     Já que sei que todas elas estão a caminho do metrô, minha fantasia então se sofistica, imagino produzir em Copacabana um remake do filme “O seqüestro do metrô”, em seguida adotando-o para mim como reality show. Afinal, é muito mais justo que elas sejam interceptadas do que cheguem às suas casas para serem mal amadas pelos respectivos, que é o que geralmente acontece.

     Quando tiver dinheiro (se é que um dia terei), vou transformar esse bar num novo Clube da Esquina. A associação dos meus amigos será bem vinda, desde que eles não questionem minha mais do que justa prevalência. 

     “Revogadas as disposições em contrário” — eis a cláusula pétrea da fundação do novo clube.

 

Essa aí já deve ter passado pela porta do bar (mas se tivesse entrado eu me lembraria...)

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 10h49
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Conhecemos muita gente assim...

     “... a vaidade e o egoísmo de Gauguin, que veria uma troca justa como um insulto”.

 

[ Acerca do pintor Paul Gauguin (1848-1903), extraído do livro “As mulheres de Van Gogh — seus amores e sua loucura”, de Derek Fell. ]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 10h44
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

O tempo guardado numa garrafa

     A restauranteur Ingrid Croce é a mulher dos sonhos de qualquer (grande) homem.

     E está enviando aos fãs cadastrados de seu marido (eu inclusive) um e-mail participando o lançamento, neste setembro, de uma linda latinha contendo três CDs com as músicas dele, em edição comemorativa ao aniversário de sua morte.

     Em admirável esforço por manter viva a lembrança de seu marido, Ingrid há anos mantém no centro de San Diego, Califórnia, o Croce’s Restaurant & Jazz Bar.

     Ela tinha 15 anos quando conheceu o amor de sua vida inteira, o grande compositor e cantor Jim Croce. Ele, que na época tinha 20 anos, escreveu para Ingrid este verso musical: “I’ve looked around enough to know that you’re the one I want to go through time with”. Ficaram juntos até que a morte — e só ela — os separasse.

     Num 20 de setembro, Jim Croce foi fazer um show na cidade de Natchitoches, Louisiana, e, em sua partida para Sherman, Texas, o pequeno avião que Jim utilizava, um modelo Beechcraft D-18, iniciou procedimento de decolagem em péssimas condições de tempo e bateu numa árvore, matando todos os seus ocupantes.

     Detalhe importante: Jim Croce tinha apenas 30 anos.

     Detalhe mais importante ainda: esse fatídico 20 de setembro aconteceu em 1973!

     Faz 35 anos que Ingrid e o filho que teve com Jim Croce fazem tudo que seja humanamente possível para preservar e ampliar a memória em torno desse grande nome da música universal.

     Ingrid chegou a casar de novo, e com um xará de seu marido, o advogado Jim Rock, que teve a imensa nobreza de ajudá-la a escrever a biografia de Jim Croce — há no mundo uma mulher assim, há no mundo um homem assim, ambos magníficos!

     É uma pena que os mais jovens não conheçam a riquíssima obra musical de Jim Croce. Considero-o o violão mais forte que ouvi até hoje, mais até do que o tão expressivo violão do meu maior ídolo musical, James Taylor.

     Para quem tome a sábia decisão de iniciar-se em Jim Croce, ou aprofundar-se no que já conheça, recomendo a primorosa antologia “Photographs & memories”, que contém o melhor do que Jim Croce fez de tão bom, como “New York’s not my home”, “Operator”, “Time in a bottle”, “I’ll have to say I love you in a song”, “Bad, bad Leroy Brown”, “Photographs & memories”, “You don’t mess around with Jim”, “Carwash blues” e a eterna, eterníssima “I got a name”, que foi tema do filme “The last American hero” e que me inspirou a começar a escrever meu primeiro livro, “Algo amarelo à minha esquerda”.

     Já que este setembro merece, vou apresentar nos dois posts seguintes a letra de duas músicas riquíssimas, “These dreams” e “Time in a bottle”, desde já confessando que são firmes convites à nossa reflexão.

     Antes, porém, beijos, beijos mil para Ingrid Croce, que continua amando imensamente seu marido, mesmo depois de sua morte, há... 35 anos!!!

     With all my love, Ingrid.

     Marcelo

 

A magnífica Ingrid à frente do pôster de seu inesquecível marido Jim Croce (1943-1973)

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 10h42
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Jim Croce 1 — A vida como a fazemos...

“THESE DREAMS”

(Jim Croce)

 

 

Once we were lovers
But somehow things have changed
Now we’re just lonely people
Trying to forget each other's names
Now we’re just lonely people
Trying to forget each other's names

What came between us?
Maybe we we’re just too young to know
But now and then
I feel the same,
And sometimes at night I think
I hear you calling my name
Mmm-hmm-mmm these dreams
They keep me going these days

Once we were lovers
But that was long ago
We lived together then
And now we do not even say hello
We lived together then
And now we do not even say hello

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 10h36
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Jim Croce 2 — A vida como deveríamos fazê-la...

“TIME IN A BOTTLE”

(Jim Croce)

 

If I could save time in a bottle
The first thing that I’d like to do
Is to save every day
Till eternity passes away
Just to spend them with you

If I could make days last forever
If words could make wishes come true
I’d save every day like a treasure and then,
Again, I would spend them with you

But there never seems to be enough time
To do the things you want to do
Once you find them
I’ve looked around enough to know
That you’re the one I want to go
Through time with

If I had a box just for wishes
And dreams that had never come true
The box would be empty
Except for the memory
Of how they were answered by you

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 10h34
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

02/09/2008


Para Galvão Bueno nenhum botar virtude

     Fico sabendo por Juca Kfouri — referindo ele a recente matéria publicada em O Globo — que cada medalha conquistada pelo Brasil em Pequim nos custou 53 milhões de reais.

     Ano passado também houve orgia: o Pan 2007, cujo orçamento era de 700 milhões de reais, consumiu 3,5 bilhões — uma “margem de erro” de “apenas” 500 por cento.

     Os ingressos para a finalíssima da Libertadores 2008 foram parar nas mãos dos cambistas, com a conivência da diretoria do Fluminense Football Club, enquanto a torcida nas Laranjeiras foi submetida a uma fila imoral, mas com direito a distração para banir o tédio: gás de pimenta.

     Em tempo, os ingressos para o show de Madonna no Maracanã, que acontecerá em dezembro, já estão, todos, nas mãos dos cambistas — que têm vistas de longo alcance e mãos rápidas.

     A próxima farra já tem data marcada, a Copa de 2014.

     Este é o Brasil real.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 11h20
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Que seria do azul se não fosse o vermelho?

     O brasileiro tentou, há uns dez anos, reinventar o termo “parceria”.

     A nova acepção estava a sugerir — na verdade ainda está, eis aqui um aviso aos incautos — uma aliança embebida em liberalidades, mas mero embuste, a semântica modernosa objetiva fugir a direitos garantidos, instituídos e garantidos em lei.

     Esse requinte de hipocrisia se presta a fingir uma associação do tipo ganha-ganha, quando a especialidade humana, desde os cavernícolas, é a associação do tipo ganha-perde.

     É claro que existem exceções — por sinal, raríssimas —, mas, via de regra, as parcerias são como a camisa do Barcelona: um sempre no azul, o outro sempre no vermelho — e desde os cavernícolas o que define quem é quem é o poder de barganha.

     Conheci uma pobre mulher cujo marido tinha um salário quatro vezes maior do que o dela, e a pressionava para que as contas do casamento fossem pagas meio a meio. Nos encontros sociais de domingo, esse aproveitador enchia a boca para dizer “Minha mulher é, além de mãe incomparável, uma grande parceira!”. Essa... parceria... durou quase vinte anos: enquanto a listra azul da camisa do Barcelona tinha para si uma invejável capacidade de poupança, a listra vermelha se dedicava a ser, "apenas", uma “mãe incomparável”.

     Repita-se, a parceria ganha-ganha não é natural do ser humano, mais acostumado à versão ganha-perde. Ainda que a ganha-ganha se estabeleça com alguma sinceridade, será efêmera, o sentimento de poder da parte mais barganhosa irá transformar a parceria em algo como você-ganha-mas-eu-ganho-muito-mais-e-você-que-se-dane-pra-lá.

     Quando a parte mais forte resolve mostrar-se por inteiro e perpetrar o estupro, a parte mais fraca precisa — nem que seja por vaidade ou orgulho — fingir estar ganhando alguma coisa, manter a pose.

     Já que a malha social do mundo é tal e qual a camisa do Barcelona, ou se é azul ou vermelho, não há terceira cor no pavilhão mundial.

     A quem não esteja bem convencido, recomenda-se aqui a leitura de “Senhores e servos”, de Leon Tolstói.

     Livro que, após ler, eu tive que vender por estar no vermelho, tendo-o feito a um leitor que estava no mais absoluto azul mas mesmo assim não esqueceu de barganhar ao máximo, arrematando o livro por dez por cento de seu valor.

     Ele sempre se refere a mim como “parceiro de ótimas leituras”. Quanto a mim, nunca me refiro a ele, desprezo esses aproveitadores, esses “parceiros da miséria humana”.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 10h31
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

01/09/2008


Confissão da narcisista

— Gosto tanto de mim, gosto tanto assim, que tomei uma decisão, vou viver comigo até o fim de nossas vidas...

 

[ ... e o espelho balançou a cabeça em sinal de silenciosa aprovação... ]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 16h46
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

... porque eu me odeio, FH!

     A bola cruzada viaja a partir de um ponto do gramado bem próximo à bandeirinha de córner. Ela vem alta, demorará todo tempo do mundo para cair no ponto de conclusão. Um goleiro que se preze tem todo esse todo tempo do mundo  para calcular quando vai cair, onde vai cair, quem estará na jogada, quem não estará nela, quando deverá iniciar sua caminhada de quatro ou cinco passos para subir e pegá-la lá no alto, com os braços bem esticados, muito acima da cabeça de um eventual adversário que tome impulso para cabeceá-la.

     Mas com você, Fernando Henrique, é diferente, você fica enraizado embaixo do travessão. Em vez de abortar a provável cabeçada, acha que poderá defendê-la depois de desferida ali, à queima-roupa.

     Leva o gol, claro, entrega dois pontos preciosos ao adversário, isso no último minuto do tempo regulamentar.

     Em todos os jogos do Fluminense, todos!, eu saio do Maracanã remoendo algum rancor em relação a você, inseguro, instável e inconfiável Fernando Henrique.

     Por que a tal janela européia não o levou para bem longe? 

     Frango não faz mal ao fígado, mas o seu genérico — você, Fernando Henrique — faz e muito!

     Obrigado, Fernando Henrique, por sempre preencher meus momentos de involuntário masoquismo porque nessas horas é melhor morrer de raiva do que de tédio..

     E agora finalizo essas mal traçadas linhas para dar vazão ao meu insolente lado sufista: vou me impor 200 açoites, a mesma quantidade de jogos (ou seria frangos?) que você tem com a camisa que já pertenceu a Paulo Victor, que sabia sair do gol tão bem...

 

 

.

 

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 15h07
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

“Even in the middle of the sadness

The everyday madness

The ongoing game

Even when you can’t find a reason

Still there is a reason

You don’t need to name it”

 

[ James Taylor (1948-    ), compositor e cantor americano, um inesperado pisciano rainy-day-man ]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 15h06
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Jamais fustigar uma deusa vingativa

     A dança imóvel” é um excelente romance do escritor peruano Manuel Scorza (1928-1983).

     Conta as venturas e, surtout, as desventuras dos incontáveis exilados latino-americanos no Quartier Latin, Paris, naquela época em que as ditaduras militares espocavam como pipoca deste lado do Atlântico.

     Nesse livro, Scorza narra um episódio impagável — se real ou fictício, isso pouco importa.

     Um parisiense, casado há vários anos com uma linda mulher também da cidade, tem que ir a Roma por alguns dias, a negócios. Na sexta-feira, liga de lá para a mulher dizendo que os assuntos atrasaram e que precisará permanecer em Roma no fim de semana.

     Na noite de domingo, liga de novo e diz à mulher “Cherrie, nos últimos dias conheci uma italiana irresistível e estamos apaixonados, decidimos morar juntos aí, no MEU apartamento. Vamos ficar mais uns dias aqui em Roma, tempo suficiente para que você, sem maiores atropelos, desocupe o MEU apartamento...”.

     A única reação dela foi dizer “Pois não, mon cher!”.

     Ele e a fogosa italiana carne-nova desembarcaram em Paris na noite de quarta-feira. No trajeto de táxi entre o aeroporto de Orly e o prédio onde morava, ele, enquanto ia sendo agarrado pela italiana apaixonada, ele temia chegar ao apartamento e encontrá-lo completamente destruído a golpes de picareta.

     Não foi esse cenário tétrico que encontrou ao abrir a porta do apartamento. Tudo estava perfeitamente em ordem na ampla sala, nos vários quartos, cozinha..., enfim, tudo normal, e até mais do que isso: em cada um desses cômodos, um belíssimo buquê de rosas com um bilhetinho escrito à própria mão: “Aos novos apaixonados, meus sinceros votos de felicidade que dure para sempre”. Todos esses bilhetes devidamente rubricados e com data e hora da saída da ocupante defenestrada, a manhã de segunda-feira.

     Ele então se sentiu culpado..., pensou “Eu tinha uma mulher maravilhosa e não sabia, ela não apenas não destruiu o apartamento como nem quis os dias de aviso-prévio que lhe dei, foi embora logo na manhã de segunda e hoje é noite de quarta... Quanta nobreza tinha essa mulher!”.

     Ao voltar à sala, ele percebeu que o telefone estava fora do gancho — no mínimo uma distraçãozinha dela ao sair...

     Antes de recolocá-lo no gancho, pôs o fone no ouvido. Vinha dali uma gravação dando a hora certa e atualizando a cada dez segundos...

     ... a hora certa de... Tóquio!!! 

     Quanto custa uma ligação DDI ativa há quase 72 horas?

 

 

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 15h05
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

     “O amor é frágil como uma teia de aranha, e pode tornar-se forte como uma corda. Mas somente se houver fidelidade”.

 

[ Vincent Van Gogh (1853-1890), gênio da pintura ]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 15h03
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Abaixo a solidariedade

     O Bar do Bardo de repente é invadido por um desses chatos repulsivos. Fala aos brados, anda daqui para lá e volta sem razão, detém maus modos que incomodam mais do que embriaguez que embriaga quem esteja perto. Usa uma camiseta surrada onde se lê “Eu não viro as costas à solidariedade”.

     Eu devia ter dito a ele “Amigão, seja solidário a mim, vire as costas e vá embora...”.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 15h02
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

A primeira, fugaz (como as demais)

     Acorda durante a noite, assusta-se com a mão que está colocada entre seu rosto e a ponta do travesseiro. Recobra mínima consciência lembrando “Bennie and the jets”, e tem o susto anterior amortecido pelos acordes da última música ouvida antes de a muito custo render-se ao sono que afinal veio mas que ao vir não se afigurava confortador.

     Junta queixo e peito, e esse panorama lhe exibe duas pernas estendidas dali até o fim da cama, percebe-as masculinas, estranha mais essa proximidade de companhia não requerida e de gênero oposto ao sempre e cada vez mais desejado. Pensa em ir ao banheiro mas o percebe tão longe e além disso não há vontade que justifique tal expedição. De onde surgida essa companhia jamais convocada, o dono da mão espalmada e das pernas esticadas até o mais curto horizonte possível?    

     Passam-lhe dois braços masculinos diante do rosto, mais um susto, agora duplo. Nem bem refeito, surge à sua esquerda o movimento de uma mão esquerda, muito parecida com a direita, a da inauguração dessa inexplicável sucessão de pavores em meio a uma noite que bem podia ser mais generosa sem estar com isso fazendo favor de qualquer tipo. Leva alguns segundos querendo acostumar a visão à insidiosa escuridão a subvertê-lo. Ali ainda estão a mão direita demarcadora de travesseiro, as pernas esticadas até onde olhar alcance..., tudo ainda tão horripilante em injustificações.

     Pensa em acender um cigarro, e como coisa adivinhada o cigarro lhe chega pelas mãos de uma das mãos intrusas..., quem aqui está pedindo gentilezas?! Suga o cigarro com força no primeiro trago, e a mão que o sustenta ainda é a mesma intrometida vinda à cena sem expresso convite... de quem é essa mão de homem a me rondar, como teria chegado aqui?, tudo que queria era uma noite de paz infinita. Atira longe o cigarro, vê na escuridão já transformada em penumbra a brasa sair pulante pelo azulejo como em busca de algo que faça seu drama kafkiano evoluir para um princípio de incêndio. Descarta sair à caça de próximos comburentes, que se dane tudo! Que homem é esse que está dormindo a seu lado, adivinhando-lhe vontades que nem queria estar sentindo pois queria estar dormindo noite de paz infinita?

     Consegue reaver o sono, dá a última pesada piscada tendo certeza de que toda a assaltante infâmia se resolverá em mais algumas horas com a chegada do sol repositor de coisas em devidos lugares. Mas acorda pela manhã ainda letargicamente estranhando as partes de seu próprio corpo.

     O homem já há longo tempo tão avesso a movimentos à sua volta agora se admira de seus próprios movimentos, membros que são seus, noite acidentalmente não cumprida de ponta a rabo, sonhos descontinuados, pesadelos estendidos até a vigília, a vida que jamais adia para manhãs ainda distantes os dramas que têm que ser passados na cara não depois mas agora!

     Já içado da cama por forças irreconhecidas, e antes mesmo de entrar no banho, continua estranhando seus próprios braços, mãos e pernas, mas, ao cair em sua cabeça o primeiro jato de água gelada ele já tinha trazido das profundezas do espólio da noite terrível a necessária solução, algo inconscientemente formulado por ele mesmo num remoer: o único amor incondicional que existe é o amor de mãe, e que  isso fique bem claro para homens que esperam receber de alguma mulher deste mundo um amor que seja... infinitamente... incondicional. 

     Mas o que isso tem que ver com as aflições passadas na noite abortada? Mais um mistério a destapar na próxima noite em contato com o travesseiro ocupado pela mão direita de propriedade já desvendada.

 

 

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 15h01
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Ousando corrigir o Poetinha

     As belas que me perdoem, pois das feias eu não quero o perdão.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 15h00
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

29/08/2008


Fina sabedoria

     “É verdade que muitas vezes me encontro na maior miséria, mas ainda assim há calma, harmonia e música dentro de mim”.

 

[ Vincent Van Gogh (1853-1890), gênio da pintura ]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 18h54
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Bom conselho

     Deu agora no portal do Yahoo! (com link para o site “Minha Vida”):

 

     “CORRER É TÃO BOM QUANTO SEXO — As substâncias liberadas na corrida são as mesmas da relação sexual.”

 

     Li isto com indisfarçável ceticismo. Tão bom quanto?!

     Bem, pelo sim e pelo não, aceite este bom conselho:

     correndo fazer sexo, correndo!!!

     No caminho você já estará liberando...

     O prazer será duplo — no antes e no durante. 

     Quanto ao depois, bem, aí depende da mulher (nunca ouviu falar em ressaca moral?)

 

 

Vá correeeeeeeeendo!!!

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 16h08
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

O coiote uivante à lua bruxuleante

      A lua brilha no céu à noite sem fazer a menor questão de que alguém reconheça que ela brilha no céu à noite.

     Mas o coiote faz questão de reconhecer, e até de perceber que o brilho da lua é suficientemente intenso para ofuscar as estrelas — incluindo as do cinema.

     Chegará o dia em que a lua reconhecerá o coiote, e com isso se sentirá ainda mais lua.

 

 

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h35
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

A reinterpretação do amor

     Quem come porco-espinho não tem a menor necessidade de depois palitar os dentes. Mas é bem provável que na seqüência tenha que recorrer ao fio-dental, para remover os espinhos tão perigosos para a futura saúde dos dentes e também do coração.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h00
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Por um neo-Iluminismo (final)

     * O deísmo — É a principal doutrina religiosa conseqüente do Iluminismo. Foi criado pelo lorde inglês Herbert de Cherbury (1583-1648) e propagado por homens como — citando aqui os mais famosos — Voltaire, Diderot e Rousseau, na França; Alexander Pope (1688-1744), na Inglaterra; e Thomas Paine (1737-1809), Thomas Jefferson (1743-1826) e o grande Benjamin Franklin (1706-1790), na América. “Não satisfeitos em condenar os elementos irracionais da religião, os deístas passaram a denunciar todas as formas de fé organizada. O cristianismo não foi mais poupado do que as outras. As religiões instituídas eram estigmatizadas como instrumentos de exploração, que astutos velhacos tinham inventado para poderem pilhar as massas ignorantes” (Burns). Ou citando o sempre brilhante Voltaire: “O primeiro teólogo foi o primeiro espertalhão que encontrou o primeiro tolo”.  O que me leva aqui a considerar que precisamos não apenas de um novo Iluminismo, mas também — ou deveria dizer “sobretudo”? — de uma nova versão de um de seus filhos, ou seja, precisamos de um neodeísmo.

 

     Passados aqui, como vimos, os grandes nomes do Iluminismo, seria o caso de consolidar a idéia — aliás, a certeza! — de que ele desencadeou uma autêntica Revolução Intelectual, a meu ver muito mais importante do que uma de suas filhas, a tão badalada Revolução Industrial, que começou na Inglaterra em 1760 e dura até hoje sem data marcada para acabar.

     É impressionante o efeito-dominó produzido pelo Iluminismo ao impor o que eu chamaria o primado da inteligência. Houve revoluções nos mais diversos campos: filosofia, matemática, física, química, biologia, medicina, geologia..., o Iluminismo semeou o campo para a humanidade depois colher o classicismo, o barroco, o rococó, a grande literatura — La Fontaine, Racine, Molière, Milton, Daniel Defoe (“Robinson Crusoe”), Jonathan Swift (“As viagens de Gulliver”), Edward Gibbon (“Declínio e queda do Império Romano”), Schiller (“Guilherme Tell”), Goethe, ... —, a grande música! — Bach, Handel, Haydn, Mozart... O Iluminismo nos fez rever o passado e querer projetar o futuro, trazendo a reforma dos códigos penais, a oposição à escravidão e à guerra, uma maior simpatia pelas classes inferiores, uma revolta contra as bases sobrenaturais da moral cristã, a procura de uma nova base para a moral...

     Não, ninguém me tira da cabeça que o mundo atual tem a ver com o Iluminismo tanto quanto eu carrego em meu corpo a herança genética de meus tataravós já mortos. Somos o rabo ainda vibrante de uma lagartixa que já morreu. Já? Precisamos revivescê-la o quanto antes, e é por esquecermos de fazê-lo que o Brasil está tão desabituado a usar a inteligência para começar a resolver os problemas estruturais que nos aguardam num amanhã sempre adiado neste país que se rendeu à favelização.

     Já que o tempo que teríamos para pensar as coisas transferimos para curtir esta nossa barulhenta vulgarização, talvez fosse o caso de, mais uma vez, buscarmos inspiração no Exterior, mas nem isso parece possível, o resto do mundo também dá sinais de rendição à preguiça intelectual, parece concentrar todos os seus poderes no aprimoramento tecnológico e na disseminação do consumismo.

     Ainda é tempo de este século recém-iniciado vir a ser uma reedição daquele outro, o do Iluminismo, que passou para a História como “O Século das Luzes”.

     Como disse Goethe ao morrer — e já que tanto quero que possamos renascer —: “Luz, mais luz!”.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 11h58
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

”When we gonna make it work?” (*)

     No casamento, as duas pessoas “são ao mesmo tempo partes, juízes e carrascos” (**)

 

     Não sabemos fazer diferente?

 

(*) Tears for Fears (Curt Smith & Roland Orzabal)

 

(**) Erasmo de Rotterdam em “Elogio da loucura”, mas tratando de outra relação humana.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 11h56
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

28/08/2008


Update operation

     Nada pode ser mais lesivo à auto-estima de uma pessoa do que o tal “amar sem ser amado”.

     O desespero decorrente disso conduz a pessoa à mais dura das versões de sofrimento, pode levá-la à autofagia, faz com que o rejeitado passe a ver o céu não mais como se em Fernando de Noronha mas como se no cinzento Wisconsin — e, pior, sem os Grandes Lagos por perto!

     Isso se torna ainda mais patético nas mulheres. Elas tendem, numa situação dessas, até a rastejar (pode isso?!). Deixam de emanar fascínio e em segundos passam a inspirar pena (existe algo pior que isso?), PENA!

     Sou capaz de pagar um prêmio de loteria só para não ver pela frente uma mulher apaixonada por quem não a queira.

     Sobretudo se for uma mulher cujos admiradores sejam tantos que se submetam a colocar-se em fila de espera.

     O melhor que essa mulher pode fazer — por si e pela humanidade — é deixar a fila andar.

     E tem que ser rápido, ligeiro, pois a vida é breve, o tempo não pára e não há a menor garantia de que estejamos vivos amanhã de manhã. 

     A felicidade é HOJE !

 

Passatempo para quem aguarda na fila

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 15h29
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Verd

     Pa bo enten me pala bas.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 14h53
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

The way it is

     Por que sempre temos a impressão de que os mendigos da rua dormem o tempo todo?

     Porque se não estivessem assim não saberíamos que são mendigos.

     Quanto ao sono permanente... Deve ser muito cansativo a todo tempo saber-se um caso falhado.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 14h44
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Na São Clemente ou no Jardim de Alah

“Passas em exposição

Passas sem ver teu vigia

Catando a poesia

Que entornas no chão...”

 

[ Chico Buarque de Holanda, em “As vitrines” ]

 

Catador de poesia adiante

 

 

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 14h42
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Manda brasa, polaco!

     Pelo meu imenso apego às grandes histórias, torço muito para que seja verdade algo lendário que se conta acerca de Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na lua.

     Em uma das incontáveis entrevistas que concedeu nestes anos todos, Neil Armstrong foi questionado sobre algo muito curioso. Disse o entrevistador:

     “Mr. Armstrong, quando o senhor desceu da Apolo XI e deu os primeiros passos na superfície lunar, é natural que tenha sentido uma emoção indescritível e que a extravasasse dizendo um monte de coisas, algumas até sem nexo aparente, o que de fato fez, tudo isso captado pelo microfone e pelo centro da NASA, em Houston, Texas...”.

     “... é verdade...”, disse Armstrong.

     “,,, mas”, prosseguiu o entrevistador, “de tudo que o senhor disse naquela hora, há algo interessante e incompreensível, algo assim como “Manda brasa, polaco!”. O senhor poderia nos explicar?”.

     Neil Armstrong escancarou um sorriso antes de responder.

     “Essa história começou quando eu era um rapazola na minha cidade, Wapakoneta, Ohio, e ainda nem sonhava ser astronauta. Uma tarde, eu estava jogando baseball com meus amigos e a certa altura um deles fez um rebote mais forte e a bola foi parar no quintal do meu vizinho, um polonês. Pulei a cerca que separava nossos terrenos, passei alguns instantes procurando a bola até notar que ela tinha caído no canteiro bem embaixo da janela do quarto do polaco. Ao me aproximar, ouvi uns gemidos saindo pela janela, notei que o polaco e sua mulher estavam fazendo sexo, e, com a curiosidade tão natural num adolescente, resolvi dar um tempinho ali para ouvir. O polaco então disse à sua mulher “Agora me chupa, querida”. A reação dela foi de indignação, ela disse “Eu? Logo eu, uma mulher de família católica polonesa?! Eu chupar você?! Queridinho, sabe quando farei isso? No dia de São Nunca..., no dia..., sabe quando?..., ah!..., no dia em que o filho do vizinho caminhar na lua!”.

 

     Eu sempre achei que o sexo oral é capaz de levar um homem à lua.

     Mas é exatamente o contrário...

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h25
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Saudade de uma risada

     Na linda música “My eyes adored you”, Frank Valli faz uma explícita referência ao bairro carioca de Botafogo.

     “So close and yet so far...”

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h23
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

O tamanho das pessoas

À Cris, olímpica

 

     “Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento.

     Uma pessoa é enorme para você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado.

     É pequena para você quando só pensa em si mesma, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade, o respeito, o carinho, o zelo e até mesmo o amor.

     Uma pessoa é gigante para você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto com você. E pequena quando desvia do assunto.

     Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.

     Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês.

     Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas.

     Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia grande.

     Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.

     É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.

     Uma pessoa é única ao estender a mão, e, ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma.

     O egoísmo unifica os insignificantes. Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande...

     ... é a sua sensibilidade, sem tamanho."

 

     (William Shakespeare)

 

[ Observação: Este texto é para ser lido ao som da música “The end of the world”, de Vonda Shepard. ]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h21
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

A estrela sobe

     Por fora, é uma escultura de Michelangelo.

     Por dentro, uma alma ainda mais bela do que a mais luxuosamente encadernada antologia das obras-primas dos pintores impressionistas.

     Falta só um pouquinho para atingir a perfeição: assimilar a “Sentença da pessoa forte” (by F. Nietzsche), que diz o seguinte:

     “Não faças perguntas. Nada de lamúrias. Agarra, agarra sempre!”.

 

 

 

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h19
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Refil de amor à vida

     Na calçada de Copacabana, ele estaca, pára subitamente ao ver ali, à espera de um táxi, uma criatura tão cheia de argumentos esculturais, capaz de matar de inveja uma Afrodite ou uma Natalie Wood ou...

     Ele se aproxima — melhor se arrepender do feito do que do não feito.

     Espeluznado, diz a ela “Quando vejo uma mulher como você, fico muito triste”.

     Ela leva um duplo susto, não o sabia por perto. “Triste? Por quê?!” — diz ela, desconcertada, liberando um sorriso paradisíaco.

     Triste, sim, porque acabo de descobrir que minha vida sem você é o mais completo vazio. Até um minuto atrás, eu era infeliz e não sabia”.

     Ele pensou que fosse ganhar um fora, mas ganhou um endereço eletrônico com a promessa de o número do telefone ser passado pela volta do e-mail.

    

     Como me lembraram há pouco tempo, é importante correr riscos.

     No pain, no gain...

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h18
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

A estrutura ausente

     Olha-me com seu indisfarçável olhar de peixe morto. Tenta se lembrar do que ia dizer. Revolve os sombrios porões úmidos da vaga lembrança e nisso gasta infinitos segundos impregnados de aflitiva ansiedade. Comemora com um tique nervoso o insight inesperado. Tenta falar com rapidez para evitar novo extravio por entre os preguiçosos neurônios. Parece ter mudado de idéia quando começa a tartamudear. Troca nomes de pessoas. Não se lembra de datas. Revela despeito e desprezo por tudo que escape à sua diminuta capacidade de compreensão. Mais um acesso de hábitos ridículos, tiques a tiquetaquear. Emite cobranças. Entoa lamúrias. Resmunga birras comezinhas. Manifesta indignação quanto a um exemplar da raça humana que tenha feito exatamente o que é de seu próprio costume. Faz uma pergunta mas em seguida demonstra não prestar mínima atenção à resposta. Mais adiante, como de praxe, esquecerá de lembrar mas se lembrará de esquecer.

     Só faltava haver nesse pacote tão desprezível o egoísmo e a avareza — aliás incorporados desde o natalício e com validade até a expiração do prazo de vida.

     Diante de patologia assim, é indispensável ter à mão o telefone de um delivery de paciência.

     Mas que eu me lembre de dar preferência a fornecedores atacadistas e de pronta-entrega, para evitar o risco de novo desabastecimento.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h15
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

27/08/2008


Muito além do jardim da semântica

     Ao amigo — the greatest of all — que hoje me enviou e-mail, faço daqui uma única ressalva...

     Há uma sutil diferença — não tão sutil assim — entre ex e ongoing.

     Que por sinal fica bem clara no enredo do famoso filme “A volta dos que não foram”.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 17h46
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

No altiplano dos nibelungos

     Entreouvido numa cabana localizada no alto de alguma montanha norueguesa após o apagar da lareira e o completo consumir das velas aromáticas.

 

     Ele: ... é, mas você um dia me convidou para deitar a seu lado no tapete da sala da sua casa...

     Ela: ...

     Ele: Você um dia disse que me raptaria, trazendo-me sem mínima resistência exatamente para cá, onde estamos...

     Ela: ,,,

     Ele: Você um dia disse que minha rádio FM favorita era agora a sua favorita também, disse que tinha comprado dois livros do meu autor favorito, disse que meu time de coração era agora o time do seu coração também...

     Ela: ...

     Ele: E agora, após um tempo tão pequeno e uma felicidade tão grande, você me vem com um papo inteiramente diferente...

     Ela: O que me obriga a ser coerente? Quem haverá de me cobrar coerência? Sua única testemunha sou eu. Posso perfeitamente sair dessa história sem que ninguém — a não ser você — saiba que de repente fiquei confusa, sem saber ao certo o que quero...

     Ele: Não importa a você que nesse seu perdimento alguém aqui possa sofrer?

     Ela: Circunstâncias da vida, querido...

     Ele: Se a situação fosse inversa, você certamente diria que todos os homens são iguais.

     Ela: Ah, é claro que diria!

     Ele: Mas já que neste caso específico a natureza enganosa é você, é fácil encontrar uma saída, não é assim?

     Ela: Ah, é claro que sim! Minhas fiéis amigas me dariam plena razão, e minha consciência está agora me dando o que tanto peço a ela, uma trégua para eu respirar dos meus infortúnios passados.

     Ele: E que eu me dane neste inesperado e injusto infortúnio que estou tendo agora, não é?

     Ela: Estamos neste mundo para ganhar ou perder e a pedra perdida da vez é você, querido. O que posso fazer?

     Ele: Ter um mínimo de sensibilidade...

     Ela: ... querido, você conhece bem melhor do que eu a história da humanidade, e do alto de sua autoridade nesse assunto responda-me: quando é que houve algum tipo de... sensibilidade? Ora, de que planeta você veio?

     Ele: Não se exaspere tanto, sempre tive imenso respeito pelos meus fracassos...

     Ela: ... ah, então me ame agora, querido, eu sou agora o seu mais recente fracasso...

     Ele: Quer ser amada exatamente por mim, o exato cara que você exatamente agora está sacaneando?

     Ela: Quero ser amada por qualquer um, desde que nessa hora eu me sinta a coisa mais importante deste mundo. E você é bom em fazer eu me sentir assim...

 

     O pior de tudo é que ele fez exatamente o que ela exigiu com suas sutis formas de exigir e de conseguir.

     Aquela cabana norueguesa, cenário da manifestação do mais raso comportamento humano.

     Dostoiévski, se chamado a opinar, diria: “Nós, incorrigíveis sensuais...”.

     Jane Austen, se chamada a intervir, apelaria para razão e sensibilidade.

     Que também não vêm ao caso...

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 17h17
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

“Se a juventude soubesse, se a velhice pudesse.”

 

[ Henri Estienne (1528-1598), pensador francês ]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 16h10
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

O elogio da loucura, o elogio da mulher

     Acabo de ganhar de presente o livro “As mulheres de Van Gogh — seus amores e sua loucura”.

     Mulheres e loucura... as primeiras podem levar à segunda — não precisaria advertir o Ministério da Saúde.

     Mas há dois tipos de loucura masculina: a dos píncaros do prazer e a das sombras do manicômio.

     Nem toda mulher é especialista no primeiro tipo. Mas quase todas batem um bolão no segundo, especialmente as especialistas no primeiro.

     Há casos em que a mulher inspira medo, e, segundo Nietzsche, é pelo ouvido que o medo entra na pessoa.

     Vai ver que foi por isso que Van Gogh cortou sua orelha para dá-la de presente a uma mulher.

     Esse tipo de loucura existe. 

     Que ninguém nos ouça...

 

 Loucura Van Gogh Arte

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 15h57
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

Orgulhos diferentes — São as mulheres que empalidecem à idéia de que seu amado pode não ser digno delas; são os homens que empalidecem à idéia de que podem não ser dignos de sua amada. Falo de mulheres completas, de homens completos. Tais homens, possuindo habitualmente confiança e sentimento de poder, no estado da paixão adquirem vergonha, dúvida em si; tais mulheres, porém, que em outros instantes percebem-se como fracas, dispostas à entrega, acham na elevada exceção da paixão seu orgulho e seu sentimento de poder — o qual pergunta: quem é digno de mim?”

 

[Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão, em “Aurora”]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h38
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Um baiano muy amigo

     Jorge Amado, de quem tenho a honra de ser afilhado de batismo, tinha uma estranha mania de sacanear os amigos queridos: presenteá-los com objetos exóticos, extravagantes ou de difícil manuseio.

     Divertia-se imaginando o trabalhão que o amigo teria para transportar, acomodar ou fazer uso do trambolho. Divertia-se mais ainda com a certeza de que o amigo não ousaria se desfazer do presente-de-grego. “Não”, diria sua consciência, “não posso jogar isso fora, quem me deu foi ninguém menos do que... Jorge Amado!”.

     Quem me revelou isso foi meu pai, o jornalista Mauritônio Meira (1930-2005).

     “Uma vez”, contou-me ele, “o Jorge estava em São Paulo, encontrou um amigo e deu-lhe de presente um vaso de cerâmica enorme, descomunal. Como ia voltar para o Rio mais cedo, perguntou ao amigo o horário de chegada de seu vôo de retorno. Na hora marcada, Jorge estava no aeroporto, escondidinho, só para ver o embaraço do amigo no desembarque, no momento de acomodar o imenso vaso num táxi, e ria, ria..., ria feito criança”.

     E completou meu pai:

     “O requinte de crueldade do Jorge era depois dizer às pessoas: “Toda vez que esse infeliz recebe visitas em casa, no mínimo faz questão de mostrar a todos aquela merda de vaso, presente de... Jorge Amado!”.

     Quando meu  pai me abriu esse lado de meu padrinho, minha lembrança fez rápido vôo até minha adolescência, lembrei que nessa época Jorge me deu dois presentes, no mínimo, incômodos.

     O primeiro foi uma jaqueta de veludo, linda, mas de cor imprópria, rosa-choque! Eu tinha vergonha de usá-la na rua, todo mundo me olharia como a um viado jovem, e essa simples idéia apavora um adolescente. Muita gente me aconselhou a tingir a bela jaqueta, mas a todos eu respondia: “Não, não posso! Quem me deu, e nessa cor, foi ninguém menos do que ... Jorge Amado..., meu padrinho!”.

     O segundo presente foi um conjunto de calça e camisa de jeans, que seria espetacular se não fosse um detalhezinho de nada, um sem-número de tachas prateadas espalhadas pelo tecido, o que fazia desse conjunto algo bem próprio para uso de um fã de... argh!... Elvis Presley. Mais uma vez choveram conselhos para salvar o presente: “Peça a uma costureira que arranque todas essas merdas dessas tachas!”. Mas eu não podia. Afinal, o presente, daquele jeito, tinha sido dado por...

     Quando completei 15 anos, ganhei de Jorge Amado um presente plenamente utilizável, a coleção completa, e encadernada, de todos os seus livros. No volume um, “Gabriela cravo e canela”, uma carinhosa dedicatória “ao querido afilhado Marcelo Zé Bodinho”, e nos demais, seu autógrafo tão valioso. Esse presente, sim, não tive o menor problema para tornar útil.

     Se meu pai estivesse aqui agora, eu lhe diria: “Porra, pai, não dava para você me dizer há mais tempo que meu padrinho gostava de sacanear com seus presentes?!”.

     Se sim, eu teria tingido aquela linda jaqueta... rosa-choque...

     Quanto ao conjunto de jeans — penso agora, tardiamente —, ficaria ainda mais imprestável se as tachas fossem arrancadas, aquilo ali não tinha mesmo salvação...

 

P.S.: Saudade de você, padrinho! Ass.: Zé Bodinho

 

.

Um adorável sacana

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h37
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

O grande perigo de escancarar

“Why must we hide an emotion?”

 

[Rick Astley (1966-    ), cantor inglês, em “Cry for help”]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h35
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Jaws

     Tubarão que é tubarão esperto fica de boca bem aberta quando nada em direção a um denso cardume.

     Que isto sirva de inspiração para os homens de bom gosto que caminhem pelas calçadas da Avenida Rio Branco em direção às mulheres estonteantes que por ali desfilam.

     Como manter-se concentrado no trabalho?

     É um problema que os tubarões (também vorazes) não têm...

     Para eles, a vida é só comilança.

     Para nós, a vida é só ganhar dinheiro e logo em seguida gastá-lo na comilança.

     Este mundo nada mais é do que um mar sem litoral.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h34
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

     “A felicidade é privilégio dos burros e dos cretinos. Felizmente eu sou infeliz”.

 

[Jorge Amado (1912-2001) em “O país do carnaval”]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h33
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

26/08/2008


A contagem regressiva do desespero

Está estampado na capa de uma revista:

 

Luana Piovani vai casar

 

Vai..., ainda NÃO casou!...

 

 

Muttley, faça alguma coooooooisa!!!

 

 

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 18h11
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

Uno avulso non deficit alter.

Quando um é arrancado, outro cresce em seu lugar”

 

“Tantaene animis coelestibus irae?”

Podem existir esses rancores em espíritos celestiais?

 

[Virgílio (70-19aC), poeta romano]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 18h07
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Unless it's too late, baby

     Entreouvido no Bar do Bardo.

 

     Ele: Apavora-me a simples idéia de perder você.

     Ela: Para que tipo de homem você pensa que me perderia?

     Ele: Um homem que tenha mais dinheiro...

     Ela: ... ah!, fique tranqüilo, eu não aceitaria um imbecil endinheirado...

     Ele: ... ou um homem mais bonito do que eu...

     Ela: ... ah!, relaxa, eu detestaria um imbecil bonitinho...

     Ele: Nesse caso, se minha sagacidade não me engana, eu não corro nenhum risco...

     Ela: Você me perderia, e em minutos, para um homem mais inteligente do que você.

     Ele: Que alívio!...

     Ela: ... e é aí que deve se concentrar seu desespero, querido.

 

     Não resisti, fui obrigado a entrar na conversa, disse ao pobre ameaçado: “Aos livros, amigo, aos livros!”.

     Quando ele foi ao banheiro, a mulher me deu uma piscadinha, chegou junto e me perguntou: “Você gosta mesmo de livros?”.

     Receio que o Bar do Bardo tenha se tornado um campo minado...

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 18h05
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

Teu divino crime foi ser bom;

Foi servir com teus preceitos menos

A soma das misérias humanas,

E fortalecer o homem com sua própria mente.

E, confundido como tu foste pelo Alto,

Ainda assim, na tua enérgica paciência,

Na resistência e na repulsão

De teu espírito impenetrável,

Que a terra e o céu não puderam abalar,

Uma poderosa lição herdamos nós.

 

[Byron (1788-1824), poeta inglês]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 18h02
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

“Só um imprudente se arrisca a ter espírito diante de pessoas que não conhece”.

 

[Claude Helvétius (1715-1771), filósofo francês]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h02
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Faro fino

     A mulher acha mesmo quando acha que não está procurando.

     Já o homem, menos cabalístico, é peça do jogo “you can run but you cannot hide”.

     “This is widely known” — thanks, James Taylor, que veio agora em meu socorro e me fez achar o que eu de fato estava procurando.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h01
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

"Se recuarmos ao começo, veremos que a ignorância e o medo criaram os deuses; que a imaginação, o entusiasmo ou o embuste os adornou ou desfigurou; que a fraqueza os venera; que a credulidade os preserva; e que os costumes, o respeito e a tirania os apóiam, a fim de fazer com que a cegueira dos homens atenda aos seus interesses."

 

[Barão de Holbach (1723-1789), filósofo francês]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h00
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

O olhar de Medusa

     Ele: Que coisa feia...

     Ela: Meu silêncio?

     Ele: A especialidade do ser humano é VINGAR-SE de quem lhe faz o bem...

     Ela: ... é triste que pense assim...

     Ele: ... eu já contava com a sua vingança.

     Ela: Huuuuuum, adoro quando um homem me fala assim, usando palavras bem duras.

     Ele: Sendo elas justas ou injustas?

     Ela: Tanto faz...

 

Medusa, obra de Bernini.  Museus Capitolinos, Roma

Medusa, obra de Bernini - Museus Capitolinos - Roma

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 11h59
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

“Eis-me aqui, não sei ser de outro modo”.

 

[Martinho Lutero (1483-1546), teólogo alemão]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 11h56
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Por um neo-Iluminismo (4)

     * Claude Helvétius (1715-1771) e o Barão de Holbach (1723-1789) — Sensacionismo, materialismo, mecanicismo. “... os homens diferem dos animais unicamente por serem mais complexos; defendendo doutrinas como essas, era natural que reduzissem ao mínimo a importância da religião. A seu ver [Helvetius], a fé num Deus pessoal e em recompensas e punições após a morte não tem nenhuma prática, nem como explicação do mundo nem como base da boa conduta” (Burns). Já Holbach “ensinava que o universo nada mais é do que matéria perpetuamente em movimento, que nunca teve começo e jamais terá fim”. (idem)

     * Gotthold Lessing (1729-1781) — Representante do Iluminismo alemão: nenhuma religião tem o monopólio da verdade.

     * David Hume (1711-1776) — Foi quem nos apresentou à nossa faculdade raciocinadora. Mas era um cético em relação às idéias iluministas. Que bom haver quem questionasse; a dialética constrói, sempre!

     * Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) — Foi um fracasso na vida pessoal, mas mesmo assim eternizou seu nome. É considerado o fundador do Romantismo, mas fez muito mais do que esse muito. Assim como Hume, era um contraponto ao Iluminismo, mas, ao negá-lo, deu-lhe ainda mais importância. Rousseau brigava com todo mundo, o que me parece ponto a seu favor — quem até hoje soube o nome de um único de seus desafetos? Lema de Rousseau, “volta à natureza”; acho-o atual, e quem discordar que ouse andar pelas calçadas dos grandes centros urbanos ao meio-dia: nada mais impessoal; dá vontade de ir colher fruta no pé...

(segue) 

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 11h55
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Orgulho e pré-conceito

     Conversa telefônica entreouvida no Bar do Bardo.

    

     Ele (com cara de poucos amigos): E você ainda me pergunta por que estou ligando?

     Ela (com cara ignorada, pois que a 600 quilômetros de distância):  Não leu o meu e-mail da manhã?

     Ele: Li, infelizmente. Caí na armadilha do “subject” — “Bom dia” — e fiz a besteira de abrir a carta-bomba.

     Ela: Se abriu e leu, por que este telefonema?

     Ele: Ora, estou ligando para cobrar que você diga claramente o que, por absoluta falta de personalidade e coragem, você quis deixar apenas subentendido com aquele texto do Veríssimo intitulado “Quase”.

     Ela: Achei que você entenderia tudo, achei que saberia ler nas entrelinhas. Afinal, inteligência é o que não lhe falta.

     Ele: Tenho dúvidas quanto a essa minha inteligência toda, sabia? Só pode ser burrice esta minha mania de me amarrar a mulheres que, no final das contas, só fazem me USAR!

     Ela (pondo diante do rosto a “persona” [máscara do teatro da Grécia Antiga] da indignação): Não usei você!

     Ele: Como não?! Estamos juntos há quatro semanas, não é? Ainda que geograficamente distantes e nos falando só por e-mail, torpedos e telefonemas, estamos juntos há quatro semanas, não é?

     Ela: É verdade...

     Ele: Há vários dias você me falou sobre seu último relacionamento com um homem comprometido que fazia de você uma ratazana, ou seja, uma oportunista que fica pegando restos de comida dos outros... Verdade?

     Ela (com voz de enfado): É...

     Ele: Só há três dias você me disse que esse relacionamento às escondidas acabou (se é que acabou) há seis semanas. Verdade?

     Ela (com voz a denunciar tédio): Verdade...

     Ele: E para concluir sobre esse seu inesperado lado utilitarista: só há dois dias você me disse que ele voltou pressionando-a por uma volta, ... mas que de fato voltou de viagem!, ele estava viajando esse tempo todo em que estávamos “juntos”.

     Ela: É, ele voltou jogando pesado, fazendo pressão, recorrendo a chantagens sentimentais, perguntando pela minha filha... Ele disse que dispensou a outra, que a partir de agora será só meu... Tínhamos uma história de nove meses, e, quanto a você, eu nem o conheço pessoalmente..., nem sei se o toque da sua mão no meu corpo me causaria delírio...

     Ele: ... e por que é que há dois dias, quando você me falou sobre essa reaproximação, eu quis romper e você fez tudo para me demover dessa idéia? Chegou a dizer que não saberia viver sem mim... Disse com todas as letras que jamais recebeu tanta atenção de um homem, incluindo ele!

     Ela: Fui sincera! Apavorou-me a idéia de perder você!!! Já lhe disse mil vezes: nunca, na vida inteira, fui tão amada por um homem como venho sendo por você há quatro semanas!!!

     Ele: Falou de mim para ele?

     Ela: Falei.

     Ele: Jogou nas duas frentes, não é? Falou de mim para ele querendo vender caro uma volta, aumentando seu poder de barganha, valorizando-se ao máximo. E falou dele para mim num último requinte de crueldade, querendo que eu intensificasse o processo de restauração da sua auto-estima. Está na cara que você JOGOU, que de fato USOU alguém, na verdade você USOU não um mas dois homens!!!

     Ela: Nunca usei ninguém! Esqueceu que fui usada por ele? Você próprio me abriu os olhos para isso, lembra?

     Ele: Se esse é o seu debut como Mulher Utilitarista, perceba-se como uma Amazona do Apocalipse, montada no cavalo Vingança...

     Ela: ... recusei sua proposta de rompimento porque queria que você lutasse por mim com todas as forças...

     Ele: ... e já sabendo que ele também lutaria por você com todas as forças dele, não é? Você queria ser objeto de leilão, não é? Isso superalimentaria seu narcisismo, não é?

     Ela: Nunca fui narcisista! Na verdade, sempre fui vítima de maus amores.

     Ele: O que inclui o “amor” dele, não é? Só que agora, nessa volta de vocês, ele terá mais trabalho. Não lhe será tão fácil administrar uma mulher que agora aprendeu a se deleitar com mimos mil. Tudo isso a um custo baratíssimo para você, barato para ele e caríssimo para mim!!!

     Ela (com presumível cara de mulher nessa hora desprovida de bons argumentos): Não é nada disso...

     Ele: Se tivesse que escrever um romance em cima dessa história tão vantajosa para você, o romance se chamaria “Orgulho e pré-conceito”.

     Ela: Por quê?

     Ele: Porque você é o orgulho, que tem no narcisismo um de seus sinais exteriores. E eu sou o pré-conceito, pois, apesar de tão “inteligente” (gostou das aspas?), apesar de tão vivido e experiente, caí como um patinho. Idealizei-a como uma mulher diferente das outras e minha ilusão se esborrachou contra o áspero paredão da realidade...

 

     Ligação encerrada, ele respirou fundo, tentando buscar as improváveis forças que busca um ser humano após se saber USADO.

     À sua frente, o amigo com quem ele dividia a mesa do Bar do Bardo, amigo que até então nada sabia mas que tudo ouvira, resolveu manifestar-se:

     “Irmãozinho, proponho que a gente constitua uma empresa de reforma de corações partidos. Toda vez que uma mulher se sentir mal amada, o namorado ou marido nos encaminha essa mulher e nós fazemos o serviço, cada um na sua especialidade. Nossa empresa terá apenas dois departamentos, o Operacional — você com sua imensa capacidade de restaurar corações escangalhados — e o de Cobrança — eu, que irei exibir a conta ao homem que graças ao serviço prestado irá desfrutar de uma mulher inteiramente restaurada. Irmãozinho, vamos ficar ricos!”

     A gargalhada unilateral que se seguiu à cena aqui narrada abafou a música que vinha do alto-falante do Bar do Bardo, “Handy man”, com James Taylor, que diz em seu refrão: “I fix broken hearts”.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 10h17
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

25/08/2008


A sabedoria do Cabrito Montês

     "Preconceito de cada um dos sexos em amor -- Mesmo com todas as concessões que estou pronto a fazer ao preconceito monogâmico, jamais admitirei que se fale dos mesmos direitos para a mulher e para o homem no amor, esses direitos iguais não existem.

     Essa palavra amor significa, com efeito, duas coisas diferentes tanto para o homem como para a mulher, e é uma das condições do amor nos dois sexos que um não pressuponha no outro o mesmo sentimento que o seu, a mesma idéia do "amor" que a sua.

     O que a mulher entende por amor é bastante claro: não é simplesmente a dedicação, é um dom total de corpo e de alma, sem restrição, sem nenhuma consideração seja pelo que for; terá medo, muito pelo contrário, corará de um abandono sob condições, ligado a cláusulas. É esta ausência de condições que faz do seu amor uma fé: a única que a mulher conhece.

     Com relação ao homem, se gosta de uma mulher, é esse amor que quer dela; está por conseqüência muito longe de postular para si o mesmo sentimento que para a mulher; caso se encontre homens que experimentassem também esse desejo de entrega total, oh, deixariam de ser homens.

     Um homem que ama como uma mulher torna-se por isso mesmo um escravo; ao passo que uma mulher que ama como uma mulher apenas se torna mais perfeitamente mulher...

     A paixão da mulher, renúncia total a qualquer espécie de direitos próprios, postula essencialmente que o mesmo sentimento, o mesmo desejo de renúncia não existe para o outro sexo; pois, se ambos renunciassem a eles próprios por amor, daí resultaria, não sei bem o quê... -- digamos talvez um vácuo? A mulher gosta de ser tomada, aceita como uma pura propriedade; quer fundir-se na idéia de "propriedade", de "coisa possuída"; exige, todavia, alguém que tome, que não se dê a si próprio, que não se abandone, mas que queira exatamente o contrário, enriquecer o seu eu, no amor, com esse aumento de força, com esse suplemento de felicidade e de fé que a mulher pretende trazer na sua pessoa. A mulher se concede, o homem acrescenta com ela; penso que nenhum contrato social, mesmo a melhor vontade e a maior sede de justiça, poderão alguma coisa contra esta antítese natural, por mais desejável que possa ser não deixar ver constantemente a dureza, o horror, o enigma e a imoralidade desse antagonismo.

     Uma vez que o amor, o grande amor, o amor total, o amor completo é da natureza, por conseqüência, como qualquer natureza, coisa eternamente "imoral".

     A fidelidade, como se vê, faz parte do amor feminino ressaltando da sua própria definição; no homem pode facilmente nascer na seqüência do amor, como uma espécie de reconhecimento, ou de idiossincrasia do gosto -- trata-se da "afinidade eletiva" — porém não entra na essência do amor; fá-lo até tão pouco que quase se poderá falar de uma antinomia natural entre o amor e a fidelidade do homem: o amor do homem sendo desejo de possuir e não abandono, renúncia, e o desejo de possuir cessando com a posse...

     Caso o amor do homem persista, é, de fato, porque o seu desejo de posse é suficientemente prudente para não se confessar, a não ser rara e tardiamente, que "possui", o que faz perdurar seu amor; é mesmo possível então que esse amor cresça depois da entrega: ele não aceita facilmente que ela não tenha mais nada para lhe "entregar".”

 

 

[Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão, em "A gaia ciência"]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 15h59
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

A esfinge

     Atenção!

     Há uma linda mulher se olhando no espelho!

     No que estará pensando com esse seu olhar tão assustadoramente profundo?

     “Decifra-me ou devoro-te” — diz a lei.

     Confesso minha absoluta incapacidade de decifrá-la.

     Cumpra-se a lei!

     Não haverá apelação!

     A sentença deverá ser cumprida no apartamento dela ou no meu?

     Não ao nascer do sol — como nos antigos duelos — mas, o que proponho, até o nascer do sol.

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h39
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

In vino veritas

(Entreouvido no Bar do Bardo)

 

A (homem com olhar perdido num ponto entre o nada e o infinito): Por que quem dá amor é sempre punido?

B (homem de imenso bigode e aparência de Cabrito Montês): Ora, porque as pessoas sempre se vingam de quem lhes faz bem...

 

[O diálogo parece inverossímil. Afinal, o que estaria fazendo Nietzsche num bar se odeia cerveja? Provavelmente bebendo vinho, que é de onde os romanos diziam que sai a verdade.]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h38
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Fina sabedoria

     “Velhos amigos, carregados de compromissos através dos anos, tendo mesmo assumido a responsabilidade de estimular-me à apresentação da sonhada candidatura, com uma insistência que não podia deixar-me dúvidas sobre a sua fidelidade, chegada a hora, fingiram-se de mortos ou ficaram frios e enigmáticos”.

 

[De Austregésilo de Atahyde (1898-1993), após ser eleito à Academia Brasileira de Letras, em 1951.]

Escrito por Marcelo Suppa Meira às 12h37
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, COPACABANA, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, English, Livros, Pós-nietzscheano

Histórico