Quando cheguei ao trabalho naquela manhã de terça-feira, a Redação estava vazia, lindo contraste com a panela ao mesmo tempo ebulitiva e efervescente em que aquele mesmo ambiente se transformava a partir das seis da tarde com a anárquica multidão de repórteres e editores compelidos a mais uma vez — tal e qual ontem, tal e qual amanhã — cumprir o que é a própria definição do que seja fazer um jornal, “o milagre diário” de na manhã seguinte estar à disposição do leitor na banca da esquina ou sobre o capacho da porta de sua casa.
Resolvi aproveitar a rara calmaria e atualizar pendências gritantes a partir da minha consciência de dever profissional. Enquanto empilhava despachos administrativos com a típica pressa de quem sabe que a qualquer momento chegarão novas demandas, eu, em minha “sala” — na verdade uma baia em frente à larga porta da Redação —, eu ia aos poucos me conscientizando de um assovio que já estava no ar há longo tempo. Sim, havia na Redação alguém bem relaxado que na última meia hora assoviava compulsivamente “Hey Jude”, dos Beatles.
Lá por volta das onze e meia, comemorei ter dado conta de todas as tarefas que me havia imposto, e, fato tão raro, um milagre!, ninguém me interrompera! E nessa muda comemoração, voltei a ter ouvidos para o assovio. Já livre das preocupações mais imediatas, resolvi entrar na Redação — campo minado mas, para mim, reduto de tão boas energias! —, tirar a limpo a procedência do assovio tão insistente, inspirado e inspirador.
Por incrível que pareça, na inteira redação havia àquela hora um único jornalista, um jovem estagiário de Esportes, Eduardo Novellino, com quem eu me dava muito bem. Aproximei-me e nem dei bom dia. “Novellino”, dei início à provocação, “alguém passou a manhã inteirinha assoviando “Hey Jude” nesta porra desta Redação! Você por acaso sabe quem foi esse viado?”. Novellino escancarou um sorriso, que evoluiu para uma gargalhada, e me disse “Ô, Maradona, você é uma figura, sabia? Não gosta de “Hey Jude”? Garanto que gosta, garanto que assoviei bem pra c*r*lh*, aposto que curtiu”.
Entrei de novo na Redação uma hora depois, agora para conseguir companhia para o almoço. Minha primeira abordagem recaiu sobre Patrícia Raposo, loura de cabelos encaracolados e piscinais olhos azuis, a mais gostosa e cobiçada jornalista da casa. Ela teve uma reação estranha, como se meu convite escondesse no subsolo uma velada investida, e então negou o convite sacando como desculpa algo relacionado a seu filhinho, Yan. Para demover Patrícia da idéia de que meu convite envolvesse segundas intenções, meu reflexo nessa hora foi estendê-lo a outras pessoas, homens inclusive — tudo que eu não queria ali é que Patrícia soubesse que eu, de fato, como qualquer homem normal, sentia por ela..., por assim dizer..., bem..., o fato é que não tenho sangue de barata...
Perdi para esse almoço a companhia de Patrícia Raposo, mas ganhei a dos outros dois jornalistas convidados: o também muito jovem Fábio, de Economia (Fábio Melo, salvo engano meu), e Eduardo Novellino, o assoviador oficial de “Hey Jude”.
Dali a alguns minutos, na ponte que separa a Rua do Imperador, onde fica o jornal, e o bairro do Recife Velho, onde ficava o restaurante Marco Zero, caminhávamos os três, eu no meio e um jovem de cada lado. Enquanto à minha esquerda Fábio falava pelos cotovelos sobre seu projeto de ir morar
Tivemos, sim, que correr ao atravessar o tão perigoso cruzamento na cabeceira da ponte, o mesmo acontecendo na volta do restaurante, e ao fim desses dois piques eu me senti muito bem por Eduardo estar comigo e com Fábio, são e salvo, mas ao mesmo tempo me senti muito mal por aquele pensamento mórbido saído sei lá de onde. Durante o expediente da tarde, entrei várias vezes na Redação e em todas elas minha vista procurou Eduardo Novellino, ele ali sentado diante do computador, trabalhando, ótima cena a me trazer conforto.
Na manhã seguinte, quando chego para trabalhar, só quem estava na Redação era o pauteiro Édson Rubi, recuperando as notícias da noite para servi-las aos jornalistas de Cidade à medida que fossem chegando. Ele estava sentado bem junto à porta da Redação, datilografando suas pautas, quando lhe dei bom dia. “Maradona”, disse ele, “você já está sabendo o que aconteceu esta noite?”. Tive vontade de brincar dizendo que o pauteiro era ele, não eu. “Não, Rubi, o que houve?”. E ele: “O Eduardo Novellino morreu”.
Minha vista turvou. Faltou-me chão sob os pés. Achei que o pensamento mórbido do dia anterior voltava agora mas pela boca de Édson Rubi. Aquilo não estava acontecendo, não era possível! “Rubi, você está brincando? Eu almocei com o Novellino ONTEM!”. “Eu sei”, disse ele, “mas à noite, ao sair do jornal, ele foi cobrir um jogo de basquete na AABB, e quando voltava para casa bateu violentamente com o carro em dois trilhos de aço que ficam logo depois da descida da Ponte do Pina, naquela esquina do posto Itamaracá Auto Shopping. Morreu na hora”.
Sentei... Rubi não iria brincar com algo tão sério. Pus o rosto entre as mãos. Sofri com a reprise da cena da tarde anterior, Novellino se agachando na ponte para amarrar o cadarço do tênis e dizendo que eu tinha salvado sua vida. E agora, 20 horas depois, ele estava morto. Aquele tinha sido o último almoço de sua vida. Opressivo pensar nisso, pois eu tinha tido a visão da morte de Eduardo, e, segundo ele próprio, conseguido revertê-la..., mas agora ela estava consumada. Fui invadido por um apavorante sentimento de culpa.
Passei o dia inteiro fazendo até muito mais do que exigia minha função de Administrador da Redação, empenhei-me ao máximo quanto ao velório e enterro de Novellino, aquilo tinha se tornado, para mim, uma causa pessoal. No fim da tarde, fui levando a coroa de flores comprada em nome do jornal e dos colegas da Redação, coloquei-a junto ao caixão, no Cemitério Parque das Flores. Bem à minha frente estava, agora inerte, aquele menino tão alegre que na véspera tinha espalhado alegria assoviando “Hey Jude”.
Eduardo Novellino tinha créditos a receber do jornal. Fui pessoalmente levar o dinheiro a seus pais, no Setúbal, mas eles não queriam nem ouvir falar nesse saldo de salário, estavam inconsoláveis, disseram-me que o entregasse à empregada deles, que tinha sido babá de Eduardo desde bebê.
Num dos dias seguintes, apresentei à direção do jornal a sugestão de batizar a Redação com o nome de Eduardo Novellino. Minha idéia não foi aceita, disseram que eu só estava sugerindo isso por estar possuído por forte emoção, “no calor do momento”.
É, só que isso já faz 17 anos e o “calor do momento” ainda não passou.
Nestes anos todos, não há uma única vez em que eu ouça “Hey Jude” e não me lembre de Eduardo Novellino. E nessas horas ele sempre aparece assoviando essa música, escancarando-me um sorriso e dizendo em seguida “Maradona, você salvou minha vida, eu ia morrendo de graça...”.























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